Uia, postei quatro capítulos de uma fic minha aqui. Espero que produtores venham e peçam pra adaptar pra roteiro. _UI
hahaha
Logo, logo, capítulo V. (V. *-* VVVVVV! #VforVendetta)
#PAREI
Uia, postei quatro capítulos de uma fic minha aqui. Espero que produtores venham e peçam pra adaptar pra roteiro. _UI
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Logo, logo, capítulo V. (V. *-* VVVVVV! #VforVendetta)
#PAREI
s IV s
Terra
PASSARA O RESTANTE da noite acordado, seguindo o ponteiro da bússola com os olhos enquanto a mão direita guiava o timão. Há duas horas vira os primeiros raios de Sol surgirem. Agora deveria ser por volta de oito ou nove horas da manhã. O Sol estava quente e castigava-lhe os ombros e a cabeça como um carrasco. O ponteiro oscilou, e ele moveu o timão para a esquerda; o Pérola locomovia-se com toda sua força e velocidade.
Acordaram assim que formou-se o dia. Mandou Gibbs acordá-los; e se não acordassem, mandou que jogasse água sobre eles. E, se ainda assim não se erguessem, que jogasse rum e depois ateasse fogo, pois, marujos que não querem trabalhar é a mesma coisa que nada. E não precisava de nada naquele momento. Ele precisava de homens que agissem e trabalhassem.
Dois marujos o fitavam abaixo, no convés. Ele os reconhecia; sabia seus nomes. Eram Delgo e Phillips. Sabia que Delgo era hispânico; apostava que Phillips deveria ser britânico. Pouco lhe importava. Delgo deveria ter dois metros de altura, e seu cabelo era negro como o céu noturno, caído até metade se suas costas; tinha muita força nos braços, e seu trabalho era muito bem vindo. Mas Phillips era um garoto raquítico; Jack até pensava se, com alguma forte rajada de vento, o rapaz poderia sair voando. Ela um pouco mais baixo que Jack, e ostentava cabelos alaranjados, que brilhavam contra Sol. Os olhos eram de um cinza profundo. Jack observou-o, as mãos agarradas ao timão, as sobrancelhas arqueadas em expressão de curiosidade e dúvida. Phillips pareceu fugir de seu olhar, virando-se para a esquerda, caminhando até a amurada. Delgo continuava mexendo com algumas cordas, ora olhando para Sparrow, ora fazendo amarras.
Jack moveu o timão um pouco para a direita. O ponteiro da bússola moveu-se alguns milímetros. Secou a testa com a palma da mão, respirando ofegantemente. Que calor!, deixou exclamar de seus lábios, suspirando. Sentia gotículas de suor grudando sua camisa ao corpo, as calças colando às pernas. Jack fechou a bússola, guardou-a no bolso do casaco e pediu para que Gibbs tomasse conta do timão.
Desceu até sua cabine. Trancou a porta e caminhou até uma tina com água. Agarrou uma jarra de metal e encheu-a com água. Despiu-se do casaco e da blusa branca de um leve linho que usava. Sentou-se em uma cadeira e pegou a jarra. Despejou a água sobre a cabeça, sentindo-a escorrer por todo seu corpo. O alívio foi imediato, e continuou, ao menos por alguns minutos, enquanto ele continuava sentado, observando o chão à frente, a cabeça para baixo, os olhos na madeira polida e escura de seu navio. Encheu outra vez a jarra e despejou, os cabelos pingando.
— Pelos deuses, por que faz tanto calor? — Perguntava, fitando o chão. — Há semanas não faz calor desta maneira… — Ergueu-se da cadeira e encaminhou-se até o espelho lascado pendurado à parede. Olhou para si, para as cicatrizes, as tatuagens espalhadas pelo corpo. Os olhos pararam no peito. Nas asas pintadas em ônix, no animal que aquelas curvas e linhas formavam. Era uma ave; a mais bela, quiçá. Um cisne. Jack sorriu levemente, enquanto passava os dedos sobre a ave no peito. Sorriu outra vez, lembrando-se do porquê de tê-la feito há alguns meses. — O rum anda realmente acabando com qualquer lucidez que tenha, Sparrow — sussurrou para si —… E como se para com o vício que dá inspiração ao homem? — Riu alto. Olhou para a face. A o ferimento em formato de X havia, há tempos, cicatrizado. Agora quase não era visível, a não ser por seu relevo. Sentia-se ridículo com aquele X na cara. Bufou.
Voltou a sentar-se. Decidiu não pensar em nada por alguns minutos. Ergueu-se e jogou-se na cama, cerrando os olhos para logo depois adormecer.
æ
CAPITÃO! CAPITÃO! CAPITÃO! — era a palavra que ecoava por seus ouvidos. Ela vinha, longínqua, irritando-o como jamais poderia irritar. Uma simples palavra fazia com que Jack tivesse o desejo de desembainhar sua espada e…
CAPITÃO!
Então acordou. Levantou-se em um solavanco, rápido, e caminhou até a porta. Era a voz de Delgo que o chamava, e ele podia ver sua sombra por debaixo da porta. Abriu-a, estampando uma face mal-humorada.
— O que raios você quer, Delgo? — Disse.
— Veja com seus próprios olhos — apontou para frente, o dedo grosso e longo indicando-lhe um local.
Jack saiu da cabine. O mau-humor dera lugar a um bom e velho sorriso quando ele avistou o que Delgo lhe mostrava.
Era terra.
Uma ilha…
TERRA!
— DAVY JONES ESTEJA NOS CÉUS! — Exclamou Jack, sorridente. — GIBBS! DÊ-ME UMA LUNETA! ANDE, HOMEM! — Jack observava Gibbs, que procurava sua luneta, atada à calça, em sua cintura. Pegou a luneta quando Gibbs a alcançou e checou a ilha. Era de longa extensão; havia tantas árvores que era impossível saber seus limites. — Mr. Gibbs, coloque o Pérola a toda sua potência. Creio que chegaremos à ilha em, no máximo, vinte minutos!
Jack ordenou a Gibbs e encaminhou-se até sua cabine. Vestiu a camisa e o casaco, guardou a bússola e o desenho de Elizabeth em seus bolsos internos. Sentou-se na cadeira à frente da mesa, no meio da cabine, e retirou o desenho do bolso. Contemplou-o por um bom tempo, os olhos fixos na face de Elizabeth sobre o papel. Ele alisou com o dedo as pálpebras dela, e seus lábios e cabelos, da forma como queria acariciar quando a visse.
Não, espere — sussurrou mentalmente para si. Como saberá se ela realmente está naquela ilha? Como saberá se ela quer algum de seus carinhos, se ela o deseja? Mal sabe das condições em que está se metendo, Sparrow, e está aí, planejando o Futuro Incerto.
Porém, Jack não se importava. Tudo o que importava naquele momento era que finalmente encontraram a Ilha. Ele finalmente tinha a esperança de vê-la outra vez, quem sabe segurá-la nos braços por vários e longos minutos. Afagar-lhe as ondas de ouro que tinha como cabelos. Perscrutar-lhe o rosto, mantendo vívida a memória de cada um de seus traços. E como era linda! Era a moça mais linda dos Sete Mares, bem Jack sabia. Era sua Rainha; a Rei Pirata. Todos deviam temer seu nome. Todos deveriam respeitá-la.
E como ele previra, levaram cerca de vinte a trinta minutos para atracar. Jack sentia o coração palpitar na boca e a respiração tornava-se mais difícil a cada segundo. Chegaram em botes à beira da praia; havia doze homens, no total. Delgo remava no bote que levava Gibbs, Jack e Phillips. Phillips observava a ilha com seus olhos cinza, um mecha do cabelo ruivo caindo sobre a testa. Ele contava que uma vez ficara sozinho em uma ilha, quando tinha quinze anos. Jack sorria internamente, pensando o quão mentiroso era aquele garoto — pensando que talvez Phillips tornar-se-ia um mentiroso até mesmo melhor que o próprio Sparrow. Ele ainda tinha seus vinte e tantos anos, e muita vida para viver, se tivesse saúde e fosse esperto. Tempo o suficiente para criar músculos, quem sabe, pensava Sparrow, sorridente. Phillips continuava sua narrativa, enquanto Delgo mostrava-se impassível e Gibbs um tanto quanto curioso. E Jack não tirava os olhos da ilha; até parecia-se com a de seus sonhos, ou era seu inconsciente fazendo-o acreditar que era a mesma ilha.
Desceram dos botes, Jack primeiro, sendo seguido por Delgo, Phillips e por último, Gibbs. Ele apanhou a bússola, abriu-a e fitou-a seriamente. O ponteiro não oscilava. Ia reto a noroeste, e era aquele caminho que deveriam seguir. Não poderiam seguir a orla a botes, alguns trechos eram repletos de pedras, e não sabiam a extensão exata da praia. Jack decidiu cortar caminho pela mata; rapidamente chegariam ao outro lado, que era onde parecia estar o que tanto desejava.
Elizabeth.
Estaria mesmo naquela ilha? Sparrow pedia aos deuses que sim, ou ficaria louco. Precisava que estivesse lá; mais uma vez com suas buscas arruinadas seria seu fim.
Mas não podia desistir. Não agora, que estava tão próximo…
Esperou os homens descarregarem os botes e ordenou que o seguissem. Jack começou a cortar caminho pela mata, a passos largos e rápidos, sempre olhando para a bússola e seguindo a direção que ela lhe ordenava.
Havia tanta mato que Jack quase não podia enxergar perfeitamente. Usava sua espada para cortar as folhas que via à frente, abrindo espaço para o restante dos homens. Deparavam-se com árvores gigantescas; umas deveriam ter dez, quinze metros. Muitas eram frutíferas, enquanto outras serviam apenas para enfeitar ainda mais a ilha.
Até aquele momento, não deparara-se com nenhum bicho selvagem. Algumas aranhas; aves. Nenhum animal que lhe mostrasse real perigo. Havia macacos, inúmeros deles. Tantos, que não poderia contar. Alguns homens brincavam com os macacos; Phillips chamava um com estalares de dedos, enquanto Delgo o fitava, mau-humorado, dizendo-lhe que o macaco nada quereria com um imbecil feito Phillips. Porém, o rapaz continuava insistindo, até que o próprio Jack virou-se e disse para esquecer-se de domesticar animais naquele momento e fizesse seu trabalho. Phillips se virou tão rapidamente que o restante dos homens desatou a rir, e o Capitão nada de gargalhadas dava. Continuava caminhando, certo de si, certo de seu caminho, compenetrado, abrindo caminho aos demais.
Jack olhou rapidamente para uma fresta no meio das folhagens, acima de sua cabeça. Deveria ser onze horas, ou meio-dia. Poderia até mesmo ser uma da tarde, não mais que isso — o Sol estava a pino, e, se não fosse por todas aquelas plantas e folhas, a cabeça estaria cozinhando como um guisado em panela de ferro.
Caminharam por quase uma hora sem parar, até que encontraram uma lagoa, grande o suficiente para banhar-se e beber de sua água. Alguns homens abaixaram-se até ela para dar longos goles. Delgo mergulhou a cabeça e ficou submerso por alguns segundos, até voltar, refrescado. Phillips bebia água loucamente, assim como Gibbs. Jack continuava no meio lugar, observando os demais, circundando a lagoa, indo até o outro lado. Olhou para o chão por alguns instantes e os olhos perceberam pegadas.
Pegadas!
Então havia alguém mais naquela ilha… Ou alguém já havia passado por ela.
Não. Aquelas pegadas eram tão recentes quanto o Sol sobre suas cabeças. Acocorou-se, fitando-as de mais perto. Eram pés descalços. Pés pequenos; pés de mulher. Um sorriso fascinante brotou-lhe nos lábios. Ergueu-se e ordenou aos homens que voltassem a andar e a segui-lo. Ouviu resmungos e pragas foram-lhe atiradas, mas tudo o que fizera foi seguir em frente. Não precisava mais de sua espada para abrir caminho, e embainhou-a. As pegadas seguiam uma linha reta até a praia, num caminho que já fora aberto há tempo. Esse caminho deve ter no mínimo um, ou dois anos, Jack pensava, andando, seguindo as pegadas atentamente. Algumas vezes não podia vê-las, porque a areia as cobria. Mas conseguia ver algumas; umas eram muito nítidas.
E caminharam por mais vinte minutos, até chegarem à praia. Sparrow puxou a bússola. Ela oscilou, apontando-lhe um caminho a ser seguido à direita. Gritou para que continuassem, e a bússola o guiava novamente. Dava passos rápidos e largos, e outra vez sentia o coração palpitar. A própria bússola tremia em suas mãos, enquanto andava e andava. Repentinamente fechou-a.
Ali estava.
Uma grande pedra. Era tão grande, do tamanho de uma casa. Os marujos a observavam com certa fascinação, parados. Até que Sparrow começou a correr. Correr como louco, como se o perseguissem, como se sua vida dependesse daquilo. Delgo o olhava, dando gargalhadas e apontando. Hohohoho; ecoava seu riso rouco e grave. Pouca bola Jack dava, correndo ainda mais rápido. O chapéu acabara por sair voando, com o vento que cortou-lhe a frente, e ele deixou que fosse-se o maldito chapéu. Quando chegou na pedra, prendeu a respiração. Caminhou até um vão que havia; era grande o suficiente para uma pessoa, principalmente para Elizabeth. Caiu de joelhos à frente do vão, procurando-a, achando apenas folhas e mais folhas. Parecia uma cama. A sensação de frustração tomava-lhe conta, e ele respirava com dificuldade.
Praguejou. Praguejou mil vezes. Onde, pelos deuses, você está?, deixou os lábios se moverem e sussurrarem, sem resposta.
Ele levantou algumas folhas. Encontrou uma faca. Analisou-a por um tempo, viu que tinha uma bela lâmina, que o fio estava bom. E havia um buraco no chão, e dentro dele, um anel. Um anel de ouro branco, com um enorme rubi. Ele conhecia aquele anel… Já havia o tido.
Observava o anel com fascinação. A ponta de esperança voltara ao que se lembrava do passado.
Aquele anel…
Ele havia lhe dado.
Quando ela ainda era uma jovem menina, com seus treze ou quatorze anos. Quando se viram pela primeira vez, no porto…
Sorriu, com o anel em mãos.
— JACK! — Soou atrás dele, a alguns metros. — JACK! OH MEU DEUS! JACK! JACK!
Jack virou-se.
O coração batia a mil batidas por segundo. Poderia saltar pela boca a qualquer instante.
Pelos deuses.
Isso não é uma alucinação.
Isso é real.
Eu não tomei rum algum…
ISSO É REAL!
— ELIZABETH! — Deixou que saísse de sua boca enquanto virava-se para ela; um grito forte e contente, escorrendo por seus lábios, denotando a felicidade que sentia àquele instante. — LIZZIE! — Ergueu-se, fitando-a, os olhos marejados, um belo sorriso no rosto. Uma lágrima escorreu de seu olho esquerdo enquanto Elizabeth também sorria e chorava, enquanto aproximavam-se um do outro. — Lizzie! — Disse outra vez, rindo como um bobo da corte, caminhando desta vez mais rápido.
Ela correu em sua direção. O abraçou como nunca o fizera, apertando-o contra si com todas as forças que lhe restavam. Jack sentia sua respiração contra seu peito; ele a aprisionava com os braços, e prometia aos Céus que nunca a deixaria ir embora. Sentia que ela lhe agarrava o casaco com os dedos, sentia que ela precisava de calor, de carinho, de atenção. Ele afagava seus cabelos e beijava-lhe a cabeça enquanto ela enterrava o rosto em seu tórax e chorava, sussurrando seu nome um milhão de vezes.
— Lizzie… — ele murmurou em seu ouvido, a voz saindo rouca e chorosa, fazendo Elizabeth arrepiar-se. — Lizzie, Lizzie; minha Lizzie! — apertou-a mais contra si. — Está tudo bem agora, querida; tudo bem, tudo bem. Eu estou aqui; eu estou aqui — beijou-lhe a testa, abraçando-a novamente.
— Jack, Jack, não me deixe aqui, por favor, por favor! — Elizabeth exclamava contra o peito de Jack, suas palavras saindo um tanto quanto abafadas. — Por favor!
— Ó, pelos deuses, eu não vou deixá-la aqui, Elizabeth! Você está bem? Parece tão frágil; está tão magra… — Ele a afastou um pouco, fitando-a por inteiro. — O que aconteceu a você, Elizabeth Swann? — Deu-lhe um sorriso de lado, fazendo-a sorrir-lhe também, ligeiramente. — É essa a minha Rainha? A Rei Pirata? Ó, não, o que lhe fizeram? — Expressou uma face perplexa. — Há quanto tempo está aqui, Lizzie?
— Jack! São tantas perguntas… — ela riu-lhe baixinho.
— Oh! Desculpe, é que… — Elizabeth interrompeu-o, abraçando-o novamente.
— É tão bom vê-lo de novo, Capitão Sparrow! — Ela dizia, feliz, a face novamente enterrada no peito de Jack. — Tão bom… — repetiu, a voz murmurada em um gemido. Afastou-se de Jack. Pegou-lhe as mãos e entrelaçou seus dedos nos dela. — Tire-me daqui. Imediatamente. — Suas mãos passaram das de Jack para seu rosto. — Por favor, Jack, leve-me dessa maldita ilha, leve-me agora; eu não posso suportar nem mais um minuto aqui. Vê o que ela fez a mim? Olhe para mim; olhe para mim — Elizabeth alinhou o rosto de Jack com as mãos, fitando-o nos olhos. — Leve-me daqui. Para Tortuga, seja lá onde for, eu não me importo; só me tire daqui!
— Seus pedidos são ordens, querida — sorriu outra vez. — Mas… temos de andar um longo caminho até o Pérola. A ilha é extensa, creio que o saiba; levamos quase duas horas para chegar até aqui.
— Não me importo de caminhar um pouco mais. Tudo o que já andei por aqui… Só… leve-me.
— E quanto ao seu Wi…
— Jack! — Interrompeu-o. — Tire-me daqui. Dane-se tudo o que está pensando, foque-se no que eu estou dizendo. Esta ilha é uma praga; uma maldição. Preciso ir embora, preciso de um banho, de roupas limpas, de comida, de água, de uma cama! — Gritou.
— Certamente eu tenho uma em minha cabine…
— Ótimo. Será esta em que me deitarei esta noite. O quê? — Elizabeth indagou-o, enquanto Jack sorria, maliciosamente. — Raios, Jack…
— O quê? — Ele repetiu. — Nada, amor. Há anos não nos vemos, só estou feliz em tê-la perante meus olhos novamente. — Jack olhou finalmente para adiante de Elizabeth; lá atrás, a alguns metros, estavam seus marujos. Delgo os fitava de braços cruzados, uma expressão impassível estampada como reação, enquanto Phillips erguia as sobrancelhas e Gibbs sorria loucamente. — Ó, claro, deveria conhecer os novos marujos. — Apontou para trás de Elizabeth com o indicador. — O brutamontes chama-se Delgo. Aquele raquítico ruivo é Phillips; ali está o velho conhecido, Mr. Gibbs, e logo ali os outros, John e Hagar, irmãos; e Thiago, Gregory, Theon… e bom, os outros três, eu não me lembro. E claro, cá estou eu, o Capitão. — Apontou para si. — Seja bem vinda à tripulação, Rei.
— Pare de me chamar de rei, e serei bem vinda. — Ela sorriu, afagando-lhe rapidamente a face e virando-se. — Mr. Gibbs! — Disse, caminhando rapidamente e abraçando o homem gordo e baixinho; fedia a rum, mas aquilo era esperado de Gibbs… e de Jack também. Mas este não fedia a álcool tanto quanto Gibbs. — Ó, tanto tempo, tanto tempo! — Elizabeth ria, observando os demais. — Não os conheço, mas muito prazer. Delgo? — Apontou para o mais alto. — Jack disse-me seus nomes. E você é Phillips.
— De onde conhece nosso capitão? — surgiu Phillips com sua voz, dando alguns passos à frente.
— Jack não lhes contou?
— O Capitão não perderia tempo com estes cães, minha Rainha — sussurrou Gibbs para ela.
— Eu lhes conto… então — Elizabeth sorriu. — Nos conhecemos em Port Royal; Sparrow salvou-me a vida — riu. — Lutamos contra Davy Jones. E ele me tornou a Rei Pirata; se é que isto me vale de algo, visto as condições em que me encontro.
— Continua bela — soou Jack, atrás dela. — E astuta como uma raposa. Não caiam na ladainha dela; podem acabar mortos, quem sabe — Jack piscou-lhe, risonho. — Mas nossa Rainha ordenou-nos que devemos tirá-la o mais rápido possível deste lugar. Sem perguntas; a moça odeia ser perturbada.
— Era isso o que procurava com sua bússola, Jack? — A voz de Delgo ergueu-se sobre a de Jack, grossa como a de um touro. — Nem tesouros, nada? É esta garotinha, somente? Andamos por todo aquele caminho, atracamos, para nada?
— Se vê o resgate de uma donzela, uma bela e formosa e corajosa donzela, a Rei Pirata, como nada, bem, então isto é um nada. Um nada valioso. Se eu fosse você, não brincaria com a língua enquanto refere-se à senhorita Swann; não por mim, mas por ela. Não sabe do que esta mulher é capaz, então não a subestime. Lutamos bravamente contra Davy Jones; ela liderou-nos. Se acha que Elizabeth não pode cortar-lhe a garganta sem que perceba, tudo bem; viva com isso em seus sonhos, mas não exponha esta sua língua de trapo na frente dela, e na minha frente, savvy?
— Não precisa me defender, Sparrow; posso fazê-lo sozinha. Delgo. Chamo-lhe de Delgo ou Gigante? É muito alto, senhor. — Sorriu-lhe. — Leve em conta tudo o que o Capitão lhe disse; bem, as coisas que este homem disse são verdade, mesmo que seja muito difícil de acreditar.
— Ora, muito obrigado — Jack comprimiu os lábios e franziu as sobrancelhas. — Por chamar-me de mentiroso.
— Oh, tudo bem, Jack. Vamos logo; mostre-me o caminho que tomou para chegar até aqui.
— Siga-me — mostrou-lhe o atalho com a mão, apontando. Começou a andar, Elizabeth ao lado.
Já andavam há algum tempo; alguns homens estavam a metros de distância, enquanto somente Gibbs e Phillips mantinham-se próximos a Jack e Elizabeth. Sparrow virou-se para ela, sorridente. Ergueu uma das mãos; segurava seu anel.
— Suponho que seja seu. De que quem mais poderia ser? — Entregou-lhe o anel. Elizabeth o pegou e colocou-o no polegar.
— Pode-se lembrar?
— Claro que posso — ele riu. — Você tinha quantos anos na época? Quatorze, quinze?
— Quatorze — ela suspirou.
— Faz muito tempo — respirou profundamente e soltou o ar pelas narinas. Voltou a fitá-la. — Você era uma garotinha; os cabelos eram louros como agora, dourados como o mais puro ouro. E encaracolados. Estavam presos a uma fita azul, em formato de laço, e claro, como uma damazinha que deveria ser, usava um daqueles grandes e pesados vestidos. Mulheres, e essa mania de se esconder sob inúmeras camadas de roupas — Jack riu novamente, passando os olhos sobre Elizabeth, que usava apenas um leve e fino vestido, puído nas extremidades. — Bom, este não é mais seu problema, creio!
— Continua descarado, Jack Sparrow.
— Não posso perder os velhos costumes. — sorriu sardônico.
Elizabeth sorriu ligeiramente, seguindo adiante.
Jack não mentira quando dissera que estavam longe do Pérola; caminhavam já há mais de meia hora. Haviam passado da lagoa, tomado água, enchendo cantis, refrescando-se. E dali para frente, disse-lhe Sparrow, teriam de andar mais uma hora. Pouco importava-se com o tempo que levassem para chegar ao navio, desde que chegassem. Já estava farta daquela ilha, das coisas lá que havia. De todo o verde-musgo, dos malditos macacos e aranhas. Queria ver-se livre daquelas pragas o quanto antes. Os deuses que abençoassem Jack Sparrow por ter chegado até aquela ilha. Ó, que Poseidon lhe concedesse paz nas águas. Aquele homem deveria ser um anjo, surgindo no meio de toda a névoa que tornara-se sua vida.
E havia de ser logo Jack, o tal anjo?
Ó, raios.
Ele andava ao lado dela, calmo, um risinho desinibido nos lábios; típico. Há quanto tempo não via aquele rosto? E há quanto tempo desejava vê-lo novamente? Não colocaria tudo a perder. Oh, não, desta vez não. Não o deixaria para trás, não deixaria a própria vida para trás.
Jack lhe perguntara: E William?
Ela deveria ter respondido prontamente: William Turner que se foda com seus novos tentáculos!
Oh! Ela deseja tê-lo respondido daquela maneira. Certamente Jack Sparrow ergueria aquelas suas sobrancelhas sardônicas e riria com ela; mas o que aconteceu à Lizzie Swann que conheci?, era o que diria. Inevitavelmente.
Ignorou aqueles pensamentos, focou no momento em si. Caminharam mais vinte minutos, e sentia-se exausta. Não deveria. Mas a ilha sugava-lhe as entranhas, e tudo o que podia fazer era cansar-se. Ela desejava um banho quente mais que a tudo; banho e comida. Se Jack lhe desse aquelas duas coisas, ela lhe daria o mundo em troca, se assim pudesse. O estômago roncava, apesar das frutas que havia comido mais cedo; mas, mangas não equivaliam a uma boa carne e batatas.
Deuses!
Há quanto tempo não comia batatas!
Se Sparrow tivesse batatas assadas, então ela o amaria para sempre.
Mais vinte minutos de caminhada. Delgo vinha logo atrás dele, não parecia arfar, ao contrário de Phillips, que encontrava-se num estado deplorável, muito pior que ela mesma. O rapaz parecia exausto, e Elizabeth sabia que ele não devia ter se esforçado muito mais que os outros, ou muito mais do que ela, que passara os últimos dois anos (e mais alguns miseráveis meses) ali. Poupou-o de críticas; parecia um garoto simpático, e não lhe tratara desrespeitosamente, como fizera Delgo. Os demais não lhe dirigiram a palavra após o discurso de Jack, mas não lhe pareciam arrogantes.
Continuou resoluta, andando, mantendo passos firmes, as têmporas suando.
Jack a fitava de soslaio. Estava a alguns centímetros à frente de Elizabeth, e via que ela suava. Delgo vinha logo atrás dela, sendo seguido por Phillips. E atrás vinham Theon e Gregory. E depois os irmãos Hagar e John, e os demais. Alguns metros a mais e finalmente sairiam do meio daquela mata toda, e chegariam à praia.
Alguns minutos depois, e lá estava o Pérola em sua imensidão e beleza. Viu que Elizabeth prendia a respiração, mordendo o lábio inferior, fascinada. Sabia que ela adorava aquele navio tanto quanto ele. Lizzie era uma verdadeira pirata. Ninguém poderia dizer o contrário. Ela própria estava ali para prová-lo.
Nenhuma mulher chegaria aos pés dela. Nenhuma seria como ela. Elizabeth Swann, única, a Rei Pirata. Jack deveria sentir-se honrado por ter sua amizade. Por tê-la ali tão perto outra vez.
— Aí está, nosso adorado Pérola. — Jack disse, solenemente, a voz soando rouca. — Espero que seja confortável o bastante para a Rainha — riu.
— Qualquer coisa é mais confortável que o chão, Jack. E aceito sua cabine como quarto. — Sorriu, tomando o passo à frente.
Seguiram-na até os botes. Elizabeth ajudou a soltá-los, e logo estavam no mar. Ela podia sentir a brisa fazendo os cabelos dourados oscilarem, alguns fios grudando em sua testa e bochechas. Sentava-se ao lado de Jack, no bote aonde iam Gibbs, Delgo e Phillips. Curiosamente, Jack a abraçava pelos ombros. Do mesmo modo quando ficaram sós naquela ilha. Eles, garrafas de rum e uma fogueira. Jack estava loucamente bêbado, e raios, ela também. No entanto, agora ele parecia tão sóbrio quanto ela. Parecia não dar atenção ao restante dos marujos; ele a abraçava, acariciava seu ombro com os dedos e a mantinha perto de si.
E havia tanto tempo que ela não sentia o calor de um corpo que não objetou em nada.
Poucas palavras foram ditas até que chegassem ao Pérola.
Jack a ajudou a subir. Elizabeth familiarizava-se com aquele cenário. Tantas coisas já haviam acontecido naquele convés… Aquele navio havia, de certa forma, mudado sua vida. E ela não poderia negar aquele fato.
Em pouco tempo os botes já estavam erguidos, os homens tratando de algumas poucas ordens que Sparrow dera-lhes. Elizabeth esperava, os olhos passando por todos os lugares em que podia. Mal podia lidar com aquela situação; finalmente via-se livre do tormento da ilha onde passara os últimos dois anos e meio de sua vida. Como Jack havia dito, estava magra, e aparentemente cansada. Os pés doíam, mas não sangravam mais. As botas que William lhe deixara se desgastaram tanto que tivera de deixá-las de lado; só a atrapalhavam. Teve de acostumar-se com o solo, as plantas e os espinhos. Calos apareceram, bolhas, nódoas negras nas pernas e braços. Porém, agora o sofrimento cessara. Ali, sobre a madeira mal polida, de um marrom quase negro, daquele convés, o ar enchia-lhe os pulmões e finalmente poderia respirar em paz. Finalmente estava em paz. Ela poderia descansar sem o medo de morrer dali dez segundos, de alguma febre. Ou ser atacada por algum animal que ainda não havia descoberto entre as matas daquele gigantesco pedaço de terra assombrado, que era a ilha.
Finalmente livre.
s III s
Maldito
— MALDITO SEJA WILLIAM Turner, o Novo Davy Jones. Que se foda William Turner, e esse maldito casamento de mentira. Malditas sejam as minhas ações impensadas. O que raios você tinha em mente quando aceitou se casar com aquele CRETINO!? — Gritava Elizabeth aos céus. — O QUE RAIOS VOCÊ TINHA!? — Jogou-se à areia da praia, abraçando os próprios joelhos. — Eu quero a minha vida de volta. Antes desse filho da puta surgir… Argh! — Bufou, batendo os pés contra o chão feito uma criança birrenta. — O desgraçado deixou-me numa ilha deserta. Nem mesmo embarcações passam por aqui. Onde estarão os navios? Será este o real Fim do Mundo? — Elizabeth ria, histérica. — Quando alguém surgirá para me tirar daqui? Não posso esperar dez anos. Não posso. Não quero. Não posso. Não quero! — Ela repetia como um mantra, apertando-se ainda mais contra os joelhos. — Eu não tenho nada além de um vestido e uma maldita faca! OBRIGADA, WILLIAM! UM VESTIDO E UMA FACA! ÚTEIS AO MÁXIMO EM UMA MERDA DE UMA ILHA DESERTA!
Parou de gritar. Os pulmões não aguentavam mais e não havia ninguém ali para ouvi-la. Quem sabe alguns animais ao norte da ilha… Mas ela nunca saiu daquelas limitações. Não tinha coragem, nem força de vontade o suficiente para investigar cada canto daquele lugar. Ela tinha apenas aquela faquinha minúscula que William lhe deixara, um vestido. E as árvores próximas à praia tinham frutas o suficiente. Pescava com a lança que lascara, quando encontrou uma madeira forte o bastante. Fazia uma fogueira e assava os peixes, que limpava com a faquinha. Bebia a água dos cocos e depois os abria, usando-os como copos…
(COPOS DE COCOS! Ora, raios, maldições, maldições!)
E havia uma lagoa. Tomava água e banhava-se nela. E não havia mais nada.
Agora encontrava-se sentada. Sem um rumo para vida. E lembrava-se de quando era criança, menina de dez anos, e sonhava ser professora, talvez. Uma boa dona de casa. Ela sonha em viajar e conhecer todos os lugares do mundo. Casar-se com um bom moço. Ter uma família. Ser feliz.
E onde raios foram parar aquelas coisas?
Onde raios foram parar seus mais lindos sonhos?
Só havia os pesadelos naquela ilha. Ela tinha medo. Sentia-se angustiada. Sentia frio, sede e fome. Talvez até ficasse doente e finalmente morresse; ao menos, aquele tormento acabaria.
E quando era menina, queria ter seu príncipe encantado — e aquilo era esperado de uma garotinha. No entanto, não era exatamente um príncipe.
No fundo, príncipe encantado sempre lhe fora um conceito. Príncipe encantado significava o homem ideal. Ou o homem de seus sonhos. No caso, ele não precisava ser um príncipe em seu lindo cavalo branco. Bastava ser o homem que Elizabeth queria.
E ela falava príncipe encantado ao pai, para não dizer o pirata dos livros da mamãe. Um pirata era um príncipe encantado. Encaixava-se no seu conceito, enquanto as outras menininhas, suas amigas, queriam Sir John, Sir Peter; Sir Qualquer Coisa. Queriam um príncipe de verdade, gostariam de ser princesas e rainhas. No entanto, Elizabeth sempre soube que aquilo era pensar alto demais, conquanto conquistar um pirata também o fosse.
Ergueu-se da areia e caminhou até seu abrigo, que localizava-se no vão de uma gigantesca pedra, alguns metros adiante da praia; uns vinte ou trinta. Era grande o suficiente para abrigar Elizabeth; o corpo cabia confortavelmente — ela riu baixinho. Confortavelmente seria… se eu tivesse um colchão de penas, travesseiros maciços e não estivesse aqui. Aí sim seria a coisa mais confortável do mundo!
Ela o forrara com folhas de bananeira. Fizera um travesseiro com algumas folhas secas, enrolando-as em uma folha de bananeira verdíssima. O chão não era tão duro, por conta da areia que carregara até lá, usando a barra do vestido como recipiente. Lembrava-se das tantas vezes que tivera de ir até a praia e voltar com o vestido carregado de areia. E por cima da areia, as folhas. Para cobrir-se não tinha nada além de mais e mais folhas. Passava frio a maioria das noites e jurava por Poseidon que ainda usaria aquela faquinha para apunhalar o coração de Turner. E aí parava, pensava melhor, e realizava-se de que, se o fizesse, teria de tomar seu lugar, e tudo o que não queria era virar um peixe desgraçado, vagando pelo mar por todo uma eternidade.
Uma eternidade — ela sussurrou, e as palavras foram proferidas como maldição, tal qual eram. William Turner seria para sempre o Capitão do Holandês Voador e nada mais. Um Dia em Terra, Dez (MALDITOS) Anos no Mar. Era aquela a maldição, não havia como ser quebrada, a não ser que alguém lhe apunhalasse o coração. Coração que estava guardado no Baú, ali mesmo com ela. Elizabeth o havia enterrado há muito, enquanto ainda passavam-se seus primeiros dias na ilha. Dois anos e meio se passaram, e deuses, ela ainda estava viva. Parecia mais um cabo de vassoura, ela bem sabia — estava magra, quase apenas em ossos.
Elizabeth fizera um jogo com o próprio cérebro quando enterrou o baú. Ela sabia o local aonde havia enterrado o caixote, mas exatamente onde, não se lembrava mais. Fora no meio da ilha, ou quase, num local onde havia mais mato e plantas que o restante da ilha. Certamente as plantas já haviam coberto o local onde o enterrara. E agora, para achá-lo, teria de cavar em todo aquele local. Mas nunca o procuraria. Nunca o abriria. E assim que visse qualquer embarcação, qualquer navio, sairia daquele lugar. Ó, só os deuses sabiam o quanto queria sair daquele lugar.
Quando chegou em seu abrigo, caiu de joelhos sobre as folhagens no chão e tateou a areia abaixo das camadas de folhas de bananeiras, à procura de um buraco. Ela guardara a coisa mais importante que tinha lá; a única coisa que realmente lhe importava.
Enfiou a mão no buraco e com os dedos ossudos, alcançou o anel. O Anel de Jack. O anel que ele lhe dera quando o vira pela primeira vez, no porto, aos quatorze anos. Ela ainda o tinha; guardara consigo o tempo todo. Escondia-o no corpete quando não podia usá-lo como pingente. E agora o tinha em mãos e observava o lustroso rubi que, apesar de todos aqueles anos, ainda reluzia como outrora. No outro branco via seu próprio reflexo retorcido. O anel era magnífico. Ela podia passar horas admirando-o, pensando nas várias formas de usá-lo e nas várias ocasiões em que poderia tê-lo em seu dedo. Porém, era grande demais para o dedo anular. Cabia no indicador, ainda que um tanto frouxo, mas ficava perfeito no polegar direito.
— Lustroso demais para seu modelo de hoje, Srta. Swann — ela sussurrou para si, fitando o anel no polegar, erguendo a mão, o queixo e nariz erguidos, os olhos para cima, os raios de Sol batendo contra o ouro e fazendo-o brilhar.
Srta. Swann?, surgiu uma voz grave ao lado dela.
— Srta. Swann, Comodoro. — Ela sorriu, fitando a imagem de James Norrington ao lado. — Divorciei-me de William Turner; deixe o sobrenome do ferreiro aos porcos, sim?
Bem lhe disse que, se ficasse ao meu lado, não estaria nessa situação. Ficou com o ferreiro, encantou-se pelo pirata, e veja bem onde foi parar, querida — Norrington apontou para a orla da praia, percorrendo-a com o dedo, fazendo Elizabeth segui-lo com os olhos. — O que vê? Uma praia. Frutos e criaturas selvagens em seu interior. Vê alguém? Uma embarcação, navio? Não – não, não, não. — Norrington ria. — Nada além de mim, sua visão, por um acaso.
— Sempre foi-me um bom amigo, Comodoro.
Sempre quis ser mais que um amigo, Srta. Swann.
— Desculpe-me por ter sido ordinária. — Agora era sua vez de rir. — Um bom amigo apenas o foi; desculpe-me se meus sentimentos não puderam ser outros.
Enganou-se quanto ao senhor Turner.
— Maldito seja esse engano. E maldito seja William Turner.
Há alguns anos podia jurar amá-lo.
— Isso foi antes de…
Antes de Sparrow — James a interrompeu, sorridente. — No navio. Flertaram e eu percebi. Flertaram até que o viu afogando-se às águas junto ao seu amado Pérola.
— Não faça-me sentir pior do que já sinto-me, James — Elizabeth suspirou, afagando o anel em seu polegar.
Bonito anel, James soou, calmo e terno.
— Sabe como o ganhei?
Ficaria grato se me contasse, e então sorriu.
— Eu estava em algum porto qualquer próximo a Port Royal. Fugi dos guardas de meu pai para poder circular pelo porto, ver o que as pessoas faziam naquele lugar. Tinha quatorze anos na época. Eu andava por ali e por aqui quando ouvi uma gritaria danada. Corri para ver o que era. Um pirata fugia da guarda local… correndo como um guepardo. Eu ficara fascinada. Era a primeira vez que via um pirata em minha vida; o fitava com brilho oscilando nos olhos — Elizabeth sorriu. — Ele me parou. Ofegante, mal podia respirar, James! E então deu-me isto, com o pretexto de que não tinha tantos dedos para tantos anéis. Ele tinha anéis em todos os dedos. E então deu-me este, retirando do dedo anular, posso lembrar-me como se houvesse acontecido há minutos! Fitou-me com aqueles olhos negros e disse-me. Chamou-me de doçura. Sim. Chamou-me de doçura e saiu novamente, correndo e correndo, enquanto eu o observava como tola.
Jack Sparrow… O conhecia antes mesmo do que aconteceu em Port Royal! — James parecia extasiado. — Nunca contou-me isso, Elizabeth.
— Sou a única que sabe. Os guardas não o sabiam, nem mesmo meu pai ou William. Sou a única que sabe da existência deste anel, a única que o usou, além do provável dono e de Jack Sparrow.
Usou este anel como pingente por muito tempo. Um dia lhe perguntei de onde havia o tirado, e disse que havia achando em qualquer lugar. Por que mentiu para mim?
— Eu tinha medo de que me repreendesse, por ter sido o anel de um pirata.
Eu talvez fosse o único que soubesse realmente de sua fascinação por piratas — Ele fez uma longa pausa, olhando para Elizabeth, que ainda admirava-se com o anel. Minutos e minutos se passaram com o assoviar do vento batendo nas folhas das árvores, as ondas vindo e indo. Até que disse: — E Sparrow era o único que entendia seu desejo por liberdade. Que sabia de seus mais guardados segredos. E fora o único a mexer completamente com você. Há algo que não podemos mudar, e chama-se destino — James suspirou, tristonho. Apanhou a mão esquerda de Elizabeth e colocou-a entre as dele — A amei como não poderia tê-la amado, querida. Mas sempre soube que seu coração não poderia ser meu. O garoto Turner deixava-me com aquela sensação de tê-la perdido. No entanto, não foi para William que eu a perdi. Foi para Jack — Soltou as mãos de Elizabeth, sorridente. — Uma escolha infeliz, a sua, casar-se com o Turner. Diz que divorciou-se? Oh, pobrezinha, não te contaram que seu casamento nem ao menos valeu verdadeiramente? — Norrington riu como um bobo da corte. — HAHA! — Gargalhou alto.
Elizabeth gargalhava com ele.
— Obrigada por ter aparecido, querido — Elizabeth o afagou na face.
Estarei ao seu lado sempre que precisar. Eu lhe prometi.
E então sua imagem evaporou como água à sua frente. Elizabeth encontrava-se novamente sozinha.
Olhou novamente para o anel. Fitou-o bom um bom tempo, enquanto a luz do Sol se ia com o dia, e a noite chegava. Abraçou-o, os braços cruzados ao peito, o anel em seu dedo. Adormeceu ali em seu abrigo, as pernas comprimidas contra o corpo, os braços ainda sobre o tórax, o anel em segurança. Adormeceu em um sono profundo, sem sonhos, sem pesadelos.
Acordou e era madrugada. Havia apenas estrelas no céu e a lua para iluminá-la. Procurou o anel e ele ainda estava em seu dedo. Lembrou-se de Jack, levando o anel aos lábios. Beijou-o enquanto roliças lágrimas escorriam de seus olhos, e sentiu-se diferente, como se houvesse sido beijada também.
Jack Sparrow beijava seu retrato e sentia sua falta.
s II s
Pesadelo
ELA ESTAVA SENTADA em uma pedra-cascalho muito alta. Os joelhos apoiavam-se contra o peito e via-se nitidamente lágrimas percorrendo um caminho úmido e triste de seus olhos até o queixo, onde deslizavam para suas mãos. Os dedos apertavam a carne das pernas e os soluços ecoavam na imensidão. Estava em uma ilha — era perceptível, por conta do mar, da pedra e da areia mais embaixo; ao longe podia ver árvores e mais árvores, árvores típicas de ilha, mas aqueles não eram os trópicos; era uma ilha asiática, tinha quase certeza — e não gostava disso; queria ir embora e podia vê-lo em seus olhos. Estava em um estado cruel de nostalgia e, só de olhar, dava pena e angústia. Os cabelos outrora vívidos e dourados caíam em um loiro opaco e sem graça, apenas ondas amareladas sobre as costas extremamente magras e sobre o vestidinho puído que lhe cobria o corpo. Os pés, sem botas, pararam de sangrar há um tempo — acostumaram-se com o terreno arenoso e áspero daquela ilha e desde então não lhe incomodaram mais. No entanto, ainda doíam de vez em quando, e aquilo a deixava ainda mais exausta.
Levantou-se da pedra e caminhou um pouco para frente; repentinamente chorava mais e mais; um choro incessante e forte, os soluços cada vez mais altos e a respiração tornava-se cada vez mais dificultosa.
Olhou para baixo e teve vertigem. Era muito alto de onde estava e lá no mar havia rochas pontudas e quiçá afiadas.
Uma dor apossava-se de seu coração e a angústia a também a dominava. Não aguentava mais aquela situação: viver naquela ilha nunca fora opção. Por que tinha de aguentar tudo aquilo? O que raios fizera para merecer tanto desprezo, tanta tristeza e tanta dor?
Há semanas vinha planejando o que faria.
Um barco, talvez, se forças reunisse. Mas para quê? Nunca mais voltaria a ver um rosto conhecido, nunca acharia alguém que a amasse realmente e não tinha vontade de viver. Queria morrer; afundar nas profundezas do oceano e ter finalmente sua liberdade. Queria ser livre de tudo o que a prendia àquela ilha, àquela vida.
Queria morrer.
Foi então que inclinou-se para frente e deixou-se levar; o corpo então estava leve e flutuando como uma pena. Ela fechava os olhos e sentia o vento contra o rosto, um sorriso sem emoção brotando nos lábios; ela estava preparada para o baque contra a água e contra as rochas. Não seria doloroso, ela não sentiria muito; logo estaria inconsciente e morta.
Então, antes de chocar-se contra o mar, proferiu as palavras: você me matou.
E depois veio a escuridão.
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— NÃO! — Ele gritava, as órbitas arregaladas e o suor escorrendo por suas têmporas. O peito subia e descia com a respiração acelerada e ofegante, assim como o pomo-de-adão movia-se incessante e frenético. — NÃO! — Respirou profundamente, tentando acalmar-se. Passou a mão na cabeça e logo depois no rosto, secando um pouco de seu suor. Esfregou as palmas das mãos nos olhos e abriu-os, dando-se de conta de onde estava e o que antes fazia.
Adormecera e tivera um pesadelo com ela. Talvez um dos piores; nunca, em seus sonhos, ela havia morrido. Sentia-se péssimo e irritadiço.
— Eu não a matei — dizia, sério, respondendo ao que ela havia dito. — Não matei você; você se matou. Foi embora… — recostou-se à cabeceira da cama próxima à parede de sua cabine. —… você… droga! — Soluçou e deixou uma lágrima escorrer. — ESSES MALDITOS SONHOS!
Não sentia-se o mesmo homem desde que ela fora-se. De alguma forma, sentia-se vazio e solitário, mesmo que o tempo que passara com ela não fora muito longo; meses? Nem mesmo meses passara com ela e alimentava aquele sentimento. Passava dias pensando nela e noites sonhando com ela. Aquele pesadelo fora horrível, e àquela altura sentia-se horrivelmente péssimo. A garganta implorava por um pouco de rum e as pernas tiravam-no da cama e levavam-no até o baú onde escondia algumas garrafas.
Ainda havia lágrimas nos olhos e ele sabia que se não as deixasse sair, ela tornariam a voltar mais tarde, e depois, e depois. A porta de sua cabine estava trancada; certificou-se de que a chave ainda continuava pendurada ao pescoço por uma corda feita de sisal. Sentou-se novamente na cama e abriu a garrafa, dando um longo gole e sentindo os tecidos de sua garganta arderem e tornarem-se cálidos.
Ele até poderia se dar ao luxo de querer morrer. No entanto, aquela era a última coisa que desejava.
Sabia onde ela estava. Sua bússola ajudava-o muito, e o senso de direção que sempre teve ajudava mais ainda. Era aquela ilha, com que sempre sonhava. Talvez fossem visões, mas, por Poseidon! Aquilo devia ser obra de Calypso, ou o que mais poderia ser? Não era de acreditar em visões — mas deveria, visto as coisas que já presenciara em vida e no Fim do Mundo, onde ocorrera maior parte de seus devaneios —, porém, e se aquelas fossem? Então teria de encontrá-la o quanto antes, ou quando chegassem à ilha, já estaria morta. O que sobraria seria apenas o corpo gélido entregue às águas do mar.
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— Mr. Gibbs — sussurrou ele, logo após sair de sua cabine. A noite ia alta, por suas contas, deveria ser duas ou três da manhã. Gibbs tomava conta de seu estimado Pérola; à proa, observava a escuridão ônix do mar e cantarolava uma canção pirata que aprendera ainda jovem.
— Sim, Capitão?
— Acha que ainda demoraremos a achar terra? — Jack segurava a bússola e olhava-a com uma atenção mórbida.
Gibbs sentiu um calafrio com a pergunta. O tom de Jack parecia um misto de ansiedade e angústia, e ele não tivera coragem o suficiente para indagá-lo o porquê.
— Se os ventos colaborarem, não. Mas, sabe, os deuses estão contra nossa vontade.
— Deuses. Malditos deuses — praguejou, fechando a bússola com violência e colocando-a no bolso. — Tive um sonho, Gibbs — suspirou. — Creio ter sido uma visão. Muito real, de fato. Sinto-me mal até agora.
— Envolve a Rei?
— Com toda certeza envolve. Desde que ela se foi, meus sonhos são um misto de memórias… e sonhos com ela. Pesadelos ou às vezes as alucinações mais cândidas que um homem já pôde ter. — A isso, deixou escapar um sorriso terno nos lábios. — Infelizmente, são apenas sonhos. E serão apenas, até que eu a encontre.
— Capitão — pigarreou Gibbs, e depois respirou profundamente. — Se permite-me a intromissão…
— À vontade.
— Como descreveria seu último sonho? Ouvi gritos, vindo de sua cabine, imagino que…
— Foi um pesadelo. — Jack respondeu. — Ela suicidava-se, Gibbs.
Gibbs contorceu os lábios e arqueou as sobrancelhas.
— Santa mãe de Deus! — Fez o sinal da cruz. — Não, Capitão; não fique assim — sorriu gentilmente. — Foi… somente um pesadelo. O Capitão não deveria sentir-se mal. Isso seria infortúnio para você, e para o restante da tripulação.
— Mr. Gibbs, você não sonhou o que eu sonhei. Se visse a expressão dos olhos dela, entenderia. Sinto calafrios só de lembrar — recostou-se à amurada, ofegante. — Temos de encontrá-la o mais rápido possível.
— O Capitão teme que sejam visões? — Gibbs o observava, o rosto em uma sombra taciturna. Os lábios estavam comprimidos em uma linha rígida e fria.
— Meu caro amigo, já deparei-me com as coisas mais bizarras, inacreditáveis e inverossímeis deste mundo. Não me surpreenderia se estes sonhos, tão reais, fossem visões. Por isso lhe digo que, quanto antes a acharmos, melhor será. E então ela estará a salvo.
Gibbs silenciou-se por alguns instantes.
Jack fitava o mar negro à sua frente. As ondas viam e iam, chocando-se contra o Pérola. O balanço o reconfortava, no entanto, a ideia de que Elizabeth poderia estar em perigo o deixava, agora, completamente incomodado. Irritadiço, bufou e fechou os olhos. Tentava lembrar-se de detalhes daquele sonho. Ela estava em uma ilha, parecia o Pacífico — então estavam no rumo certo. Ah! Sua bússola não falhava, principalmente quando Jack tinha certeza do que mais queria. Ele a queria. Não desejava mais nada se não ela.
Sentia-se dividido. Culpava-se por tê-la deixado ir. Ao mesmo tempo em que dizia a si mesmo que não poderia tê-la impedido. Ou poderia? Só saberia se tivesse tentado, e agora já era tarde demais.
Ele ainda lembrava-se da expressão no rosto dela. Um misto de tristeza e esperança? Ele próprio ostentava aquelas emoções na própria face. Entretanto, Jack Sparrow não poderia deixar transparecer seus reais desejos e sentimentos. Aquilo não lhe era permitido, ou perderia todo o respeito que conseguira conquistar durante os anos que se passaram.
O homem que não amava nada além do mar e a ele mesmo.
Fechou os olhos e suspirou. Tateou o bolso interno de seu espesso casaco, enfiando os dedos delicadamente nele. Puxou um papel fino de lá. O papel estava dobrado em quatro partes. Ele o abriu cuidadosamente, certificando-se de que nada poderia molhá-lo ou estragá-lo. Sorriu, fitando os traços em carvão sobre o papel. Eles formavam aquela visão única. Lembrava-se de quando os fizera.
Se havia algo em que era realmente bom, era naquilo: fazer retratos. O pai dizia que aquele dom fora-lhe dado pelos deuses. Jack apenas sorria e dizia que era mais um passatempo.
Desenhara Elizabeth na noite em que ela dormira em sua cabine, quando a vira pela primeira vez, depois de fugir de Port Royal. Usara carvão e papel, apenas, pois eram as únicas coisas que tinha à disposição.
E ela dormia feito uma criança sobre a cama pouco macia de sua cabine. Parecia exausta, abraçada a um travesseiro, a expressão serena de quem dorme tranquilamente estampada em seu rosto. Os lábios escarlates estavam púrpura quando Jack a cobriu com uma das cobertas que guardava no baú aos fundos do quarto. Retirou-lhe o cabelo da face, colocando-o atrás de sua orelha. Elizabeth moveu-se, não mais que alguns centímetros, e logo depois aquietou-se. Repentinamente, Jack Sparrow notava que aquele momento deveria ser único. Uma bela dama, moça jovem ainda, deitada em sua cama, e ele nem mesmo tinha coragem de deitar-se ao lado dela. Notou que a respeitava como não respeitava a mais ninguém. A única com quem era lhano a maior parte do tempo. E como poderia ser? Conhecia a menina tão pouco, mas de certa forma, ela lhe transmitia segurança para contar-lhe os segredos. Naquele momento, Jack sorriu como nunca; como um garoto que acabou de ganhar sua primeira espada e deixou de ser chamado de rapaz para ser chamado, finalmente, de homem.
Jack lembrou-se dos papéis e carvão que tinha. Pegou-os e a desenhou, delineando cada um de seus traços delicados, a boca que agora retornava ao tom original escarlate, o nariz um tanto afilado, os cílios espessos, as sobrancelhas um pouco mais escuras que os fios dourados que cobriam-lhe agora as costas. As bochechas rosadas. O pequeno risinho no canto direito dos lábios. Depois guardou o carvão e o restante dos papéis. E aquele ele dobrou em quatro e guardou-o no fundo de seu baú.
Quando estava no Fim do Mundo, naquele maldito Baú de Davy Jones, aquele desenho era seu único companheiro, além das aberrações que eram as suas visões e suas cópias neuróticas e psicóticas.
E talvez agora aquele desenho continuasse sendo sua única companhia, apesar de Gibbs, apesar de toda a tripulação — apesar de ter todos aqueles navios, que raptara de Barba Negra.
Agora, nada daquilo importava e, mesmo que a contragosto, ele admitia que tudo o que tinha de mais precioso era aquele desenho.
Jack levou o desenho até os lábios e depositou um beijo sobre o papel. Observou-o novamente e logo em seguida, guardou-o no bolso interno de seu casaco. Puxou, do bolso que ficava abaixo daquele em que guardara o desenho, sua bússola. Abriu-a, resoluto.
— Mr. Gibbs — soou ele, virando-se para Gibbs, que estava sentado nas escadas do convés. — Nós temos um curso!
s I s
Memórias
O MATO ERA alto e macio. Era fim de tarde, ela pôde perceber, pelo alaranjado, azul e púrpura que misturavam-se e formavam o tom do crepúsculo no céu.
Caminhava lentamente, a mão escorregando nas pontas da grama alta; um sorriso doce nos lábios e serenidade em todo seu corpo.
Mais à frente havia um menino. Cabelos semicompridos, caindo sobre seus ombros e uma bandana atada à cabeça.
Ele cantava a cândida melodia de liberdade que ela aprendera… Ele cantava como um pirata. Não poderia cantar como outro; o sorriso que tinha estampado em seu rosto não era nada mais, nada menos que a confissão de seu coração fora da lei.
Era ele seu terno menino; a cara do pai — conquanto não fosse o pai certo. Não William… — em todos os sentidos; vestimentas, trejeitos e sentimentos. Era seu pequeno pirata.
Ao horizonte formou-se fumaça esverdeada. Um clarão verde, na verdade. E logo o imperial Holandês Voador surgia, imergindo das águas, transformando o outrora mar calmo em ondas quase devastadoras. Por sorte, estava longe da beira da praia.
Ela mordiscou o lábio inferior em um suspiro; sentimentos divididos àquela hora.
E aquele era apenas um dia normal; passara-se tanto tempo que ela mal lembrava-se bem sobre os dias, meses… Mal sabia sobre os anos!
Não sabia se ria, sorria ou simplesmente ficava sem expressão alguma. Não sabia o que fazer.
Não teve tempo de pensar o suficiente. William Turner estava à sua frente, sorridente.
Aproximaram-se. Beijaram-se.
E por fim, aquelas cenas — que poderiam ser tortuosas, de certo ponto de vista — eram apenas imagens criadas por sua imaginação. Por seus sonhos.
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Elizabeth deu um salto, arregalando os olhos e respirando sofregamente.
Apenas um sonho, sussurrou para si.
Apenas mais um maldito sonho, continuou dizendo.
Ergueu-se lentamente de onde estava sentada — em cima de uma esteira de palha que fizera há alguns meses — e massageou as têmporas úmidas.
Estava muito frio e ela vestia apenas um vestido e as botas que William deixara quando foi embora — ou quando a abandonara.
Desde então, desde aquele pútrido dia em que concordara em entregar-se a William Turner, sua vida passou a ser o próprio inferno.
Dias e noites lamentáveis em uma ilha isolada de qualquer tipo de civilização; ela, bichos e frutas. Nem rum havia. Nem mesmo um barco. Nem mesmo espíritos que viessem atormentar-lhe — poderiam até mesmo ser miragens!
Tudo o que ela mais queria era ver-se livre daquele antro de solidão. Daquela nostalgia desgraçada.
Mas ela devia culpar a quem mesmo? A ela? A William? Quem era o real culpado?
Os dois quase tinham a mesma parcela de culpa — agora restava saber com quem ficava a maior parte. No entanto, ela sabia que era culpada também. Culpada por ter dado ouvidos a Will, por ter acredito em um futuro bonito e feliz ao seu lado. Culpada por não ter visto o quão incerto seria aquele futuro; sozinha, em uma ilha deserta, abandonada por todos; apenas o murmúrio do zéfiro frio durante o crepúsculo e nada para confortá-la.
Aliás, ela adoraria ter uma daquelas cobertas fofíssimas que Maria — sua empregada, quando Elizabeth ainda era criança — lhe fazia quando ainda vivia em Port Royal — e enquanto ainda tinha seus belos sonhos com piratas.
O pai preocupava-se o tempo todo com o duvidoso interesse de Elizabeth por piratas; as outras meninas, filhas dos outros nobres, sonhavam com príncipes ou até mesmo os outros meninos da cidade. Contudo, Elizabeth escondia-se abaixo dos cobertores, com um lampião, e lia aqueles livros — muitos até mesmo pertenciam à sua mãe — sobre piratas; muitos tratam-se de contos, mas todos a encantavam.
Eles eram livres; saqueavam, matavam, bebiam e eram livres. Faziam o que bem entendiam da vida, seguiam as próprias regras enquanto Elizabeth seguia as de Josefine, a mulher contratada para ensinar-lhe Etiqueta. Para ensinar-lhe como agir feito uma dama, como comer adequadamente, como usar um guardanapo e encher-lhe a paciência com livros maiores que a Bíblia sobre a cabeça; ande com classe e elegância, Srta. Elizabeth; classe e elegância — oh, ela ainda podia ouvir a voz aguda, meio estridente e irritante de Josefine Delacroix em pequenos trechos de sua memória.
Pequeninos, porém, vívidos. E odiava ter que lembrá-los, assim, repentinamente.
E então lembrou-se do talvez péssimo dia em que conhecera William Turner.
O navio afundando-se; destroços no mar. Resultado de piratas, é claro, ela dizia para si enquanto observava os vários barris — de rum, pólvora ou o que quer que fosse — flutuando nas águas semiclaras do oceano. Ela esperava de tudo. Corpos mutilados — quiçá visse braços, pernas e alguns dedos sobre a água —; partes do navio; talheres — garfos, facas, colheres —; móveis; redes…
Contudo, não esperava ver um menino. Não um homem — ela realmente esperava por um pirata —, mas… um menino. Frágil, talvez dócil, manso, calmo, quase morto. E então apontou para o mar. Avisou ao pai e ao Comodoro Norrington sobre o menino.
Homens se moveram, resgataram o corpo mole e leve do menino e colocaram-no em segurança no navio. Elizabeth aproximou-se, os olhos não tão inocentes para uma menina de onze ou doze anos observando-o.
E o menino disse-lhe o nome: Will.
E não que a vida de Elizabeth houvesse mudado naquele instante. Sentia algo diferente pelo garoto Will. As pessoas — algumas delas — encaravam como forte amizade — e afinal, elas estavam certas.
E cresceram boa parte da vida juntos. Tinham quase a mesma idade — tinham apenas um ano de diferença —, brincavam juntos e aprendiam coisas juntos. E Will sempre tratava-lhe como uma real dama; posso convidar-lhe para um piquenique, Srta. Swann?; e ela dizia-lhe: chame-me de Elizabeth, Will. E como resposta tinha: Não posso, Srta. Swann. É inadequado.
E aquilo a irritava profundamente. Não gostava de ser tratada como uma dama, ela realmente não gostava daquela ideia. Por isso muitas crianças fugiam de Elizabeth; diziam que não eram da mesma classe social e dispersavam-se. E restava apenas Will, com seu jeito meio simpático e educado de ser. E então sua relação com o moço Turner tornou-se um pouco mais forte.
Ela lembrava-se de um novembro em que as temperaturas estavam amenas e podia passear frequentemente na praia. Já tinha quinze anos, quase dezesseis e conseguira um dia para fazer seu passeio sozinha — geralmente o Governador Swann enviava algum de seus aliados para vigiá-la.
E William a seguiu. Ela pediu para que fosse com ela.
Depois de caminharem um pouco, deram-se as mãos. Havia algo de surreal naquele momento, afinal, Elizabeth nunca esteve assim tão perto de um garoto, mesmo que Will fosse seu grande amigo desde que o havia conhecido. Mas… sim, era surreal.
Sentaram-se na areia da praia e fitaram o horizonte. Em um momento, Elizabeth inclinou-se, enquanto William a observava docemente. E então beijou-o, depositando sutilmente seus lábios nos dele. Um simples beijo. Fora seu primeiro beijo. E o de William também.
Contudo, pueril.
Ela esperava as borboletas no estômago que Serafinne, uma das empregadas — uma das mais legais — de sua casa, descrevera uma vez.
Borboletas no estômago, Lizzie, e então Serafinne sorria gentilmente. Você sentirá as borboletas e então saberá que foi especial. Espero que não se engane. Mas sei que, se um dia se enganar, saberá ao sentir, realmente, essas borboletas que lhe falei. Elas são… incríveis, e a farão sentir os mais frios e, em controvérsia, os mais quentes e doces sentimentos que o mundo nos dá. Borboletas, e Serafinne dava uma risadinha débil e engraçada, e Elizabeth ria junto dela.
Todavia, Elizabeth não sentira as borboletas ao beijar William, naquela tarde de novembro. E agora aquilo soava debilmente em seus ouvidos.
E algo relampejava em sua mente: Elizabeth nunca sentira borboletas por William Turner.
Nem mesmo em outros beijos. Em outros olhares. Outras situações. Nunca.
Até mesmo poderia querer sentir. Pensava ser obrigada a presenciar as borboletas em seu estômago. Afinal… estava casada com William Turner.
Mas Elizabeth sabia que sentira aquilo apenas uma vez. Com apenas um homem.
Um sorriso brotou em seus lábios ao pensar em seu nome. Murmurou-o mudamente no ar, apenas movimentando a boca e sonhando em reencontrá-lo.
Lembrou-se de quando tinha quatorze anos e estava em um dos portos próximos a Port Royal. Já conhecia Will há dois anos, porém este não a acompanhava em sua viagem.
Na verdade, Elizabeth deveria estar em casa, com alguma das empregadas ensinando-lhe a tricotar. Porém, fizera de tudo para que o pai deixasse que o acompanhasse em sua viagem.
Quando atracaram, Elizabeth decidiu andar um pouco pelo porto. O pai não deixara, obviamente e, com a astúcia que sempre teve, conseguiu livrar-se dos braços de Dick Harrison, um dos corsários que protegiam-na.
E pôs-se a andar.
Enquanto observava o porto — as águas límpidas e calmas que batiam vagarosas e calmas nas pedras do píer; os pássaros no céu violáceo; as pessoas barganhando e pescando; coisas rotineiras de porto —, notou murmurinhos rápidos e ferozes a alguns metros de distância.
Não estavam tão longe dela, os murmurinhos, que tornavam-se gritos, berros e ameaças soltas a cada passo que dava, aproximando-se. Havia algo errado, ela sabia. Os guardas corriam de um lado para o outro, com suas armas e espadas.
Chegou ainda mais perto, desviando das pessoas à sua frente e dos obstáculos no chão, com passos ágeis e velozes. Viu o que causava tanta confusão.
Era um homem. Um homem completamente diferente de todos que já vira na vida.
Trejeitos estranhos ele tinha, de fato. Usava uma bandana vermelha, desbotada, colete, botas e várias coisas atadas à cintura. Os olhos eram negros e o sorriso quase perverso; no entanto, Elizabeth podia notar que naquele sorriso só podia haver sarcasmo ou sadismo — mas sadismo não se encaixava em perverso?
Quem se importava? Afinal, acima de tudo, encantou-se pelo homem. Ele era… um pirata!
Há anos procurava encontrar um. Apenas ver. Não precisava mais do que aquilo para que seu coração acelerasse e perdesse o compasso.
Era um real pirata; inteligente, rápido, sagaz, hábil e astuto.
Ela era, talvez, a única naquele lugar que estivesse adorando presenciar a cena, mesmo que não entendesse nada, já que não sabia os acontecimentos anteriores. Mas de algo sabia: aquele homem daria um jeito de escapar, ileso e folgadamente.
Lá estava ela, trajando um de seus vestidos que o pai comprara em uma viagem a Londres, os olhos bruxuleando contra a luz do Sol, marejados de fascinação.
Fascinação. E ainda mais fascinação quando ele passou ao seu lado, ofegante, parando um pouco de correr. Estava fora de alcance, pelo menos por dois ou três minutos.
O homem fitou-a, sorriu. Sussurrou algo como eu não tenho muitos dedos para tantos anéis e, tirando um anel grandioso do dedo anular — um grande anel, realmente; Elizabeth encantava-se com a esmeralda cravejada no ouro branco —, deu-o a ela. Sorriu outra vez — mais um dos sorrisos que ela presenciara; um sorriso completamente cafajeste — e continuou a correr.
Observou-o ir, e, em pouco tempo, perdeu-o de vista.
Então guardou o anel consigo. Quando chegou ao navio, procurou uma corrente. Colocou-o nela, usando-o como pingente.
E apenas Elizabeth sabia da existência daquele anel. Apenas ela o possuía.
Porém, nunca pensou que, anos mais tarde, aquele homem — aquele pirata — viesse a ser o homem que havia salvado sua vida, logo após desmaiar, por conta do ar que faltava em seus pulmões, caindo no mar, em Port Royal.
Se não fosse por ele…
Se não fosse por ele, muitas coisas não teriam mudado.
Sua vida, em particular. Se Jack Sparrow não houvesse surgido para resgatá-la do fundo do oceano, estaria morta. Ou quem sabe alguém tivesse chegado a tempo para salvá-la.
E, se o tivessem feito, o que teria acontecido a ela? Continuaria em Port Royal, vivendo sua vida de realeza. Quem sabe tivesse casado-se com Will, afinal. Quem sabe fosse aquilo destino — estar atada a ele eternamente. Viveria em Port Royal até seus últimos dias; cuidaria de seus filhos enquanto William trabalhava. Seria uma dama, repleta de regalias, para sempre.
Em contrapartida, seu pai não teria morrido. Nem James Norrington. Nem muitas pessoas, se Jack Sparrow nunca houvesse entrado em sua vida, mudando-a drasticamente em questão de segundos. Em questão de poucos minutos.
Porém, parar, pensando naquilo e nas hipóteses que a cercavam antes de conhecê-lo, faziam-na cogitar sobre o quanto Sparrow fora importante para ela. Ele, seu instinto de liberdade que enchia Elizabeth de esperanças. Felizmente encontrara um pirata; ele era o que os livros que lera na infância descreviam e um pouco mais. Havia algo além de ser pirata em Jack que fazia Elizabeth perder o fôlego. Jack representava tudo o que sonhara na vida. E nunca devia culpá-lo pela morte de seu pai ou de outras pessoas — Jack Sparrow não era o real culpado.
Pessoas morrem, Elizabeth murmurou para si.
E Jack não é o culpado, então sorriu levemente.
Bem. Ela poderia culpá-lo até a morte… Mas seria injusto. Jack a salvara tantas vezes. Até mesmo mais que William. Jack importou-se com ela até o último instante em que se viram.
Como não pôde notar isso antes?
Como não pôde notar as borboletas? Elas estavam lá, o tempo todo. Não precisava tocá-lo, Elizabeth as sentia apenas ao fitar Jack Sparrow.
Acusava a si mesma estar errada ao ter aquela sensação estando próxima a Jack; a sensação de querê-lo ao seu lado para sempre. Sentia-se culpada por querer um homem praticamente inalcançável.
Uma vez Jack disse-lhe: meu amor é o mar, doçura, e ela guardara aquelas palavras até ouvi-lo pedi-la em casamento, no Pérola. Ela reclamava sobre o quanto estava pronta para se casar. E Jack pediu-a, de seu modo, mas o fez. E Elizabeth recusara.
Quiçá estivesse em uma situação melhor se o tivesse aceitado.
Então o desafiou a ser um bom homem.
E ele a desafiou a provar ser realmente pirata.
Provando coisas um para o outro.
E até aquele momento, Elizabeth envolvia-se em dúvidas terríveis. Ela realmente não sabia o que sentia verdadeiramente por Jack. A bússola apontava para vários pontos. Às vezes Elizabeth a abria com confiança e objetivo, e apontava para onde estaria o baú de Davy Jones; outras apenas apontava para… Jack. Quase todo vez que a abria, apontava para Jack. E ela pensava ser a única a ter notado.
Norrington o notara também. Manteve-se calado após seu comentário sobre como desejava que Elizabeth o olhasse do modo com que fazia com Jack. Após isso, continuou imerso nas próprias opiniões.
E Elizabeth ficava ainda mais confusa.
Chegaram à ilha. A bússola apontava novamente para Jack e, miraculosamente, quando pousou-a sobre a areia da praia, apontou para onde estava o baú. Jack ordenou a James para que começasse a cavar e logo estavam com ele em mãos.
Então ouviu a voz de William atrás de si e não pôde pensar em mais nada a não ser correr até ele, que envolveu-a e beijou-a, enquanto James e Jack olhavam desgostosamente.
E depois, uma série de acontecimentos; o ataque de Davy Jones — Deus! Eles tinham canhões triplos! — e Jack fugira como um covarde. Elizabeth o odiava àquela hora. Maldito pirata pusilânime, murmurava para si enquanto encontravam um modo de acabar com a besta de Davy Jones — Kraken, e ela sentia arrepios apenas ao pensar naquele nome — e William teve uma ideia. Explodi-lo, não completamente, mas o bastante para terem algum tempo.
Prepararam os barris — pólvora e rum — em uma rede e Will foi erguido junto com ele. Ele disse-lhe para acertar, e ela disse que só o faria quando William estivesse a salvo.
Procurava uma maneira de fazê-lo sem machucar Will ou provocar sua morte quando sua perna foi serpenteada por um dos tentáculos do Kraken. Por sorte foi salva.
Porém, a arma que William dera-lhe para que atirasse nos barris foi jogada acima das escadas. Elizabeth correu até lá, a respiração ofegante e pânico em sua face. Quase pegou-a quando um pé surgiu e trancou-a ali. Elizabeth empurrou-o, mas ele continuava insistente, até que a pessoa abaixou-se. Era Jack. À sua frente. A feição mais séria estampada em sua face.
Jack apanhou a arma e Elizabeth enlaçou-lhe a perna; quase chorava. Não sabia descrever o que raios sentia, mas segurando-o tinha certeza de que estava mais segura.
Jack atirou. William caiu ao chão. Os barris explodiram. O Kraken os deixou por algum tempo.
Poucos sobreviveram. Will, Mr. Gibbs, Jack, Cotton, Pintel, Ragetti e ela.
Jack ordenou que saíssem do navio. Ela o olhava, intrigada, enquanto Sparrow acariciava a madeira do Pérola, triste, porém, resoluto.
Pensamentos surgiram-lhe.
Jack estava lá, próximo ao mastro. E era ele quem trazia aquela fera para eles; Davy Jones deixara-lhe marcada a pele. O Kraken sentia o cheiro de Jack assim como ela podia sentir a maresia do mar.
Aproximando-se de Jack, disse-lhe que ele poderia ser um bom homem. O plano que havia formado em sua cabeça era simples — trancá-lo-ia ao mastro e deixá-lo-ia no Pérola, para que afundasse junto ao Kraken e para que pudesse salvar o restante da tripulação —, mas tudo no que pode pensar era no quanto Jack a deixava fora de si quando a olhava daquela maneira, com uma certa ponta de tristeza, culpa e doçura nos olhos e na voz. Os lábios dele curvavam-se em um sorriso sem graça e o magnetismo àquela altura agiu por si mesmo.
Aproximou-se mais e colou seus lábios nos dele. Ela sentiu a mão de Jack em sua cintura e segurou-o no rosto, aprofundando o beijo com a língua e sentindo as borboletas de Serafinne — enfim lá estavam elas, voando descontroladamente em seu estômago, fazendo-a sentir-se a mulher mais desejada e feliz do mundo… naquele momento. A respiração tornava-se dificultosa à medida que sentia a língua de Jack.
Como em um raio, lembrou-se do plano.
Deslizou a mão pelo braço de Jack e recostou-o ao mastro. Viu os grilhões e pegou-os. Percebeu o quanto Jack estava entregue a ela e usou aquilo para trancá-lo. Afastou-se, forçando uma de suas feições mais sérias e ordinárias e viu a expressão dele — parecia desapontado.
E, aquele desapontamento — que em primeiro momento deixara-a sentindo-se a pessoa mais horrível do mundo — repentinamente tornou-se em um sorriso perverso.
Explicou-lhe o plano. Quase beijou-o novamente — ela o desejava fortemente, mas conteve-se. Tinha de se conter… — e então ouviu-o dizer-lhe: Pirata.
Deixou-o no navio.
Viu o Pérola afundar-se ao longe, o coração batendo em um ritmo incomum; ela queria morrer. Sentia-se péssima e controlava as lágrimas enquanto William a olhava de maneira desgostosa.
Foram até Tia Dalma.
E lá pôs-se a chorar, de uma maneira não escandalosa; ela não podia chorar loucamente. Tinha de se controlar.
Foi feito então outro plano. Resgatar Jack.
Uma série de acontecimentos após aquilo. Cingapura. O Fim do Mundo — ela queria muito tê-lo abraçado e beijado outra vez. Ela queria muito ter sido recompensada com um olhar dele… Conquanto estivesse ele olhando-a incrédulo. Olhando-a de maneira cruel e magoada… —; Will acusando-a de amar Jack — ou fora ela que confessara aquilo? Não ouvira palavra alguma sair da boca de Will, mas sabia o que ele queria dizer… Então havia admitido? —; lutas. Jack dizendo que nunca a perdoaria. A Corte. Rei Pirata. Um casamento que de fato não era um casamento — afinal, não era Hector o capitão do Pérola; era Jack! — Will sendo morto por Davy Jones. Jack matando Davy Jones — e tornando Will o novo capitão do Holandês —. Despedidas. Dor. Angústia. Confusão de pensamentos.
E enfim via-se abandonada naquela maldita ilha. Ela, seus pensamentos e nada mais. Agora não havia nem mesmo o vento para soprar-lhe os cabelos.
E, definitivamente, sentia a falta de Jack.
Sentia demais.